Mensageira das águas

Conto de Sandra Maria Fontoura Queiroz de Pina narra o encontro entre uma mulher, uma canoa e uma carta que atravessa o tempo para reacender uma história de amor

Publicado em 03/09/26

Sandra Maria Fontoura Queiroz de Pina

Sandra Maria Fontoura Queiroz de Pina

3ª Titular Cadeira 16

Ana viu a canoa de novo, subindo o rio. E de novo. A canoa só subia o rio.

Rio de águas rasas no leito de pedras.

Era a mesma canoa. Tinha na proa as letras AL.

Ana tirava a roupa do varal quando viu a canoa chegando.

Desta vez a canoa parou. Ana viu quando ela veio devagarinho e parou. Ancorou. Vazia.

Ana deu mais uma olhada e entrou, ainda de dia.

Ana olhou para fora de noitinha. A lua batia na canoa imóvel.

Amanheceram muitos dias. Anoiteceram outras tantas noites. A canoa lá.

Chovia.

Quando secou, Ana desceu a trilha, parou no barranco e olhou. A canoa se moveu, ou a água moveu a canoa.

Vem”, disse a canoa.

Ana foi e viu o livro dentro da canoa. Era uma canoa pequena. A canoa balançou, e o vento farfalhou as folhas do livro e o abriu como um leque, e depois o fechou. Ana ficou olhando. O vento bateu de novo e abriu as folhas como se fossem cartas de baralho, uma após a outra, e depois as fechou.

Ana voltou para casa.

Foi ficando de noitinha. Antes de fechar a janela, Ana olhou e viu a lua batendo na canoa.

Boa noite”, disse a canoa.

Boa noite, pensou Ana.

De manhã, Ana desceu de novo o atalho. No ancoradouro parou.

A canoa disse de novo: “Vem”.

Ana chegou mais perto. Tentou alcançar a canoa. Não conseguiu.

O vento bateu e a canoa se moveu assim de ladinho, tentando encostar de parelha com a beirada do ancoradouro. Como um cavalo faz quando beira a cerca e se movimenta de banda e se aproxima para o cavaleiro abrir a tramela da porteira de lado.

A canoa suavemente chegou juntinho. Ana olhou o livro. E ele farfalhou. As folhas se moveram como uma sequência de peças de dominó, caindo aos poucos, uma a uma, umas sobre as outras. Ela olhou o livro mais de perto.

O livro disse:

Me pega

E ela pegou o livro.

A canoa fez um movimento de inspiração profunda e parecia que tinha inchado. Depois, se aquietou, aliviada.

Ana segurou o livro. A capa em branco, o papel amarelado. Como seus cabelos brancos amarelados de sol e descuido na seca do cerrado.

Devagarinho subiu a encosta. Entrou em casa. Sentou-se à mesa de madeira. Olhou o livro.

O livro disse: “Me abre”.

Ela abriu o livro devagarinho. A primeira página em branco, e a segunda também e a terceira. Ela então folheou o livro. Nada escrito.

Algo caiu. Voou como uma folha. Uma carta.

A carta disse:

Me lê

Ela leu: “Sou eu. Aquele que sempre foi seu. Sempre”, confessou a carta.

Ana fechou os olhos.

Era dele! Era ele! L!

O coração disparou.

Não conhecia a letra dele. Naquele tempo eles não sabiam escrever. Mas já sabiam dizer…

Eu te amo!”, interrompeu a carta.

Eu também, pensou Ana. E se acalmou.

Ainda tem o meu retrato?”, perguntou a carta.

Tenho, pensou Ana.

Olhou lá para cima da prateleira. A mala antiga. Desceu a mala. Abriu. Na caixinha, quase desfalecida de velha, o retrato no envelope. Desbotado do suor de suas mãos. Abriu o envelope e mirou o retrato. O retrato se coloriu todo e botou verde nos olhos apagados e sorriso na boca fechada.

Vem cá”, chamou a carta.

Ela voltou à mesa.

Vim te buscar”, revelou a carta. “Vem”.

Vou, pensou Ana e foi dormir. De mãos dadas com a carta.

De manhã cedinho acordou, vestiu sua roupa mais nova. Já tinha uma dúzia de anos, mas estava nova.

Calçou sapatos que não calçava há um tempão. Não tinha batom. Ia assim mesmo. Pegou só a carta.

Estou te esperando”, sussurrou a carta.

Deixou a porta da cabana aberta para quem chegasse.

A canoa estava lá, do mesmo jeito. Entrou. Devagarinho, a canoa se moveu e começou a descer o rio. O sol brilhou.

A canoa tomou o lado direito do rio, na direção da correnteza.

O rio segue para a esquerda, pensou Ana, e suspirou.

Fica tranquila”, disse a carta.

Ana ficou.

Confia”, pediu a carta. “Um livro não pode ter páginas em branco”.

Não, pensou Ana. E se lembrou de que deixara o livro sobre a mesa.

Vamos escrever o nosso livro”, prometeu a carta.

E a canoa seguiu. O rio bifurcou para águas mais calmas, mas a canoa não virou à esquerda. Seguiu a correnteza.

Estou feliz, pensou Ana.

Eu também”, disse a carta.

Quando Ana viu a corredeira à frente, lá longe, ela já sabia que a queda d’água estava além.

Quando ouviu o barulho das águas, Ana não teve medo.

Estava pronta.

De mãos dadas com a carta.

“Me vira”, disse a página.

 

Na aventura de viver

o monograma,

cedo ou tarde

quando o longe chama,

enfrentamos o desconhecido

(que nossa emoção

de há muito

já conhece

e deseja.)

E quando amanhece,

deixar para trás o papel vazio

sobre a mesa,

e ter a coragem

de ir ao encontro

das águas.

Sempre é tempo

de ouvir o amor,

bálsamo que acalma

o inquieto procurar

do coração,

de levar só os sonhos

na alma

e a carta,

na palma

da mão.

(E lá vem a canoa subindo de novo o rio.

E de novo.

Nas margens da vida,

vidas esperam para viver.)

 

COLUNA PROSAS EM ARTES. Texto publicado no Jornal Opção, Goiânia, 25 de agosto 2026.
Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/prosas-em-artes/mensageira-das-aguas-864027/

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